sábado, 18 de abril de 2020

O Coração de Alzira





“Era coração, aquele escondido pedaço de ser onde fica guardado o que se sente e o que se pensa sobre as pessoas das quais se gosta? Devia ser”







- Caio Fernando Abreu in: O Coração de Alzira - Inventário do Ir-remediável -

O dia de Ontem





“Achava bonito e difícil ser um tecelão de inventos cotidiano (…) mas perguntaste novamente se eu estava disposto a continuar tecendo - e então eu disse que sim, que estava disposto, que eu teceria. Que eu teço”






- Caio Fernando Abreu in: O dia de Ontem - O Ovo Apunhalado -

Pequenas Epifanias


“Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tempo incapazes de ver uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que recomponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome”



- Caio Fernando Abreu in: Pequenas Epifanias - Pequenas Epifanias -

O dia em que Urano entrou em Escorpião


-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.
(Silêncio)



- Caio Fernando Abreu in: O dia em que Urano entrou  em Escorpião - Morangos Mofados -

Lixo e Purpurina






“Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia”







- Caio Fernando Abreu in: Lixo e Purpurina - Ovelhas Negras -

Diário IX







“Quero ser eu mesmo. Será difícil? Com tudo de mau que isso possa trazer. (…) É preciso agora concretizar a ideia: tirá-la dos limites do pensamento, arrancá-la apenas do papel e torná-la um pedaço de mim, decisão cravada no corpo”









- Caio Fernando Abreu in: Diário IX - Limite Branco -

domingo, 29 de março de 2020

Pequenas Epifanias





“Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom”






- Caio Fernando Abreu in: Pequenas Epifanias - Pequenas Epifanias -